Sinarquivo - Entrevista Inaldo

 

 

 

Apresentação


Inaldo Nascimento Conceição é arquivista formado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), foi o primeiro arquivista da Universidade Federal do ABC, em Santo André – SP. Atualmente é servidor da Universidade Federal de Lavras em Minas. Inaldo é um dos arquivistas mais participativos e atuantes no Brasil, e trata-se de um especialista quando o assunto é concurso público.

 

 

 

Diante do grande número de vagas abertas nas Universidades Federais e diante da baixa procura por candidatos a estas vagas, o SINARQUIVO resolveu entrevistar Inaldo e assim dar maiores informações sobre este tema, estimulando o crescimento de candidatos e consequentemente aumentando a chance de termos arquivistas ocupando estas tantas vagas abertas nos últimos 2 anos.

 

Sinarquivo:


Nos anos de 2008 e agora em 2009, muitas vagas foram criadas nas Universidades Federais. A que você atribui este número expressivo de vagas?

 

Inaldo:


O Certamente esse grande número de vagas criadas nas Universidades está relacionado a três questões: primeira é a de que o cargo de arquivista consta no Plano de Cargos e Salários dos Técnicos Administrativos das Universidades; a outra é que se deu após a criação do SIGA que é o Sistema de Gestão de Documentos e Arquivos da Administração Pública Federal, mas especificamente com a criação do SIGA do MEC quando todas as Universidades e os antigos CEFETS, agora Instituto de Educação Técnica e Tecnológica Federal, tiveram que indicar nomes de servidores responsáveis pelos arquivos nessas instituições para a composição do SIGA do MEC enquanto órgão seccional do SIGA. Estava na UFABC quando saiu a portaria com os membros do SIGA MEC e percebi que muitas universidades novas ficaram sem representantes, então entrei em contato com a Coordenação de Documentação e Informação do MEC na época relatando o problema, a coordenadora na ocasião disse que sairia outra portaria para inclusão dos arquivistas das novas universidades e assim foi feito. Tornei o representante da UFABC e comecei a participar de um grupo de discussão na internet que reunia os membros do Siga MEC. Neste grupo de discussão, percebi que boa parte das Universidades indicou profissionais com variadas formações para serem membro do SIGA MEC, tinham professores universitários, historiadores, bibliotecários, analistas de sistemas de informações - os mais comuns. Era perceptivo a ausência de graduados em arquivologia. A partir disso, acredito que houve uma preocupação dos dirigentes para a importância de se ter entre seus quadros, embora constassem do plano de cargos e salários, o profissional arquivista, aliado a isso, o REUNI que é um projeto de reestruturação das universidades colaborou no tocante a contrapartida para as universidades com cargos e felizmente nessa reestruturação praticamente todas as universidades foram contempladas com vagas para arquivistas, podemos notar que muitas universidades sequer solicitaram as vagas junto ao MEC, ou seja, foi o MEC que acrescentaram aos pedidos das universidades vagas para arquivistas, um fato que ficou bem óbvio perante a comunidade arquivística foram as 13 vagas para a Universidade Federal do Amazonas, e a instituição não sabia o que fazer com tantas vagas.

 

Sinarquivo:


Você enxerga neste cenário alguma relação possível entre estes concursos e eventuais futuros cursos de graduação em arquivologia que podem ser abertos nestas Universidades?

 

Inaldo:


Não vejo nenhuma relação, pois acredito que a criação de cursos de graduação parte de algum grupo de professores que têm interesse na área de pesquisa em arquivos, documentação, memória etc. Já a abertura de vagas para arquivistas é uma decisão administrativa, ou seja, da área meio; enquanto a criação de cursos está relacionada com a área fim, não vejo qualquer relação.

 

Sinarquivo:


Muitas pessoas têm dúvidas em relação ao salário pago pelas Universidades Federais. Os editais anunciam geralmente salários abaixo de 2 mil reais. Quais os benefícios existentes? Existem aumentos previstos?

 

Inaldo:


Existe uma lei assinada pelo presidente da república que reajusta o salário dos servidores das universidades dentre outras categorias do serviço público federal. No caso dos técnicos administrativos de nível E, isto é, aqueles que possuem o ensino superior: o caso dos arquivistas, o salário aumentará a partir de julho dos atuais 1.747 para 2.300 este ano e cerca de 2.900 para o ano de 2010. Esse aumento ainda não está confirmado, pois foi anunciado antes da crise econômica e o governo já fala em rever tais reajustes. Mas existe uma política de aumento de salários para os servidores das Universidades. O plano de cargos também é um fato a ser considerado. Se um graduado em arquivologia tem uma especialização ele já entra com um aumento de 27%, se o curso tiver relação direta com a área, ou 20% se a relação for indireta. Se tiver mestrado a porcentagem é de 52%, doutorado cerca de 80%, além de poder aumentar o seu vencimento básico com curso de qualificação, com carga horária superior a 110 h.

 

Sinarquivo:


Quais as perspectivas profissionais que você verifica para um arquivista que ingressa numa Universidade federal? Qual expectativa este profissional deve ter em relação aos desafios que terá?

 

Inaldo:


O arquivista é um profissional novo nas universidades, salvos as federais de Santa Maria, do estado do Rio de janeiro e a fluminense, explicado pelo fato destas instituições serem as pioneiras no oferecimento da graduação em arquivologia, podemos notar que agora é que muitas IFES estão recebendo tais profissionais. Nestas instituições o serviço de arquivo sempre foi tratado com desdém, assim como a maioria das instituições. O pessoal que se ocupa dos serviços arquivísticos ainda é do ensino médio, quando se têm de nível superior os mesmos são formados em História ou Biblioteconomia. Então o arquivista precisa fazer o diferencial, fazer de fato Gestão de documentos, mudarem os paradigmas inerentes a esta área. O desafio é estimulador. Há chances dos próprios bacharéis em coordenar as atividades, pois dá área só tem ele, isso é o mais desafiador. Há chance de se fazer carreira, progressão profissional nas universidades. Mas não podemos esquecer que estamos falando de serviço público. As dificuldades existem. Pode-se se da sorte de ir para uma instituição que tenha recursos financeiros, disponibilidade em investir em Gestão documental, mas encontrarão pessoas a fim de te impedir a realização dos projetos arquivísticos, de um gestor que coloque seu projeto na gaveta. Também pode ocorrer de acontecer desvios de função, fato que o profissional não deve aceitar, se você foi aprovado para o cargo de arquivista, deve exigir que suas atribuições estejam em acordo com a Lei que regulamenta a profissão de arquivista, a 6.546.

 

Sinarquivo:


Você que é um acompanhador atento dos concursos, vagas abertas, candidatos convocados, trace um panorama a respeito da participação dos arquivistas nestes concursos das universidades federais.

 

Inaldo:


Percebo que nos estados onde se tem a graduação há algum tempo, a participação de arquivistas é significante. É assim quando se têm concursos para as Universidades Federais nos Estados do Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e o Distrito Federal. Esses estados já têm um corpo considerado de profissionais formados. O que não acontece com estados onde não se tem cursos de arquivologia, posso citar o estado de Minas, cujo curso de arquivologia iniciou este semestre, praticamente todas as universidades de minas abriram concurso para arquivista, poucas preencheram as vagas. Na Federal de Uberlândia havia duas vagas e tiveram 8 inscritos, nenhum foi aprovado. Na UFLA no primeiro concurso foram 9 inscritos e 2 vagas apenas eu fui classificado e teve um outro concurso com 9 inscritos também, e 1 classificado que não pode assumir, já que não era formado. Na Federal de Juiz de Fora, foram 6 inscritos, 4 classificados, todos formados no Rio, já chamaram 3. Na UFMG foram 12 inscritos, 3 classificados e já convocaram 2. Tivemos recentemente concurso para a federal de Viçosa, na Zona da Mata, com 4 vagas para arquivistas, desta vez bastante concorrido, embora boa parte, acredito eu, não são formados em arquivologia, mas percebi que tiveram muitos arquivistas inscritos de vários estados, principalmente do pessoal da UNESP de Marília, aliás esse pessoal está ajudando a nós arquivistas a ocuparem nosso espaço. Já têm da UNESP, três arquivistas na federal do Mato Grosso do Sul, alguns na Federal de Santa Catarina, na Federal do Paraná, na Federal de São Paulo, um na Federal do Piauí, Federal de Goiás.

 

Sinarquivo:


A que você atribui o fato de algumas vagas não serem preenchidas ou o fato de alguns concursos não termos candidatos em número significativo?

 

Inaldo:


As vagas que não foram preenchidas foram para as IFES cujos estados ainda não possuem a graduação em arquivologia ou que iniciaram recentemente, embora em alguns concursos houve sim candidatos, mas não aprovados; está faltando mais estudos daqueles que se propõem a prestarem concursos, não basta achar que o concurso não é tão concorrido que não precisam estudar, pelo contrário é preciso atingir um percentual mínimo para serem aprovados. Posso citar também que as bancas que elaboram as provas têm exagerado na dose aliado a isso tem a questão de cobrar muito conteúdo para pouco tempo de estudo.

 

Sinarquivo:


Você tem alguma sugestão do que poderia ser feito a respeito?

 

Inaldo:


A divulgação das vagas em vários grupos de discussão é uma das formas de aumentar a participação de candidatos nestes concursos, tenho feito isso, a Executiva Nacional das Associações de Arquivologia – ENARA. Isso será resolvido aos poucos com o aumento de graduados em arquivologia, à medida que se têm mais bacharéis, a chance destes irem para outro estados ou de retornarem aos seus estados de origem também aumenta. 

 

Sinarquivo:


Qual seu recado final para o arquivista que está lendo a entrevista e está em dúvida se faz ou não um concurso para uma Universidade Federal?

 

Inaldo:


Diria pra ele que faça sim, o salário está melhorando, temos um bom plano de carreira, o ambiente é propício para aqueles que querem continuar a estudar, até porque a isto está aliado à progressão funcional, o que significa aumentar o seu vencimento básico. As IFES vivem um momento de expansão, ou melhor, de reestruturação.